Graças a Deus, fiz uma cirurgia na boca que me obrigou a ficar calado dois dias, tempo e mãos livres para o computador e a memória relaxada pensando passados.
Foi assim tranquilo e a gosto, que me lembrei do dia em que estávamos almoçando Bacalhau a Braz - com Paulo freire, sua esposa e sua equipe; Darcy Ribeiro e outros amigos exilados - na casa onde morávamos Cecília, eu, e nossos filhos, em Lisboa, no Campo Pequeno - onde ainda se humilham touros com bandeirolas coloridas espetadas no sangue, sendo retirados da arena depois da faina, vivos, mas envergonhados, por doze vacas corpulentas com guizos no pescoço! - quando, na sobremesa, minha mãe visitante me disse que tinha trazido do Brasil uma carta do Chico. Pusemos a carta-cassete na vitrola e, pela primeira vez, ouvimos "Meu caro amigo", com Francis Hime ao piano. Falávamos tristezas, e ouvimos um canto de esperança.
Chico resistia aqui no Brasil, escrevendo "Apesar de você" e "Vai passar", e nos ajudava a resistir, lá fora, cantando sua amizade. Sua lírica era a mais pura poesia épica: seu caro amigo eram todos os nossos amigos, e todos os nossos amigos eram seus.
Emoções, existem muitas... Algumas são irrepetíveis.
BOAL, Augusto. In: FERNANDES, Rinaldo de (org.). Chico Buarque do Brasil. Rio de Janeiro: Garamond: Fundação Biblioteca Nacional, 2009. p. 45.
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